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domingo, 22 de janeiro de 2017

Você já explicou para o seu filho que há crianças especiais?

Ontem foi mais um dia de rotina, quando levo meu filho para jantar em algum restaurante com brinquedos uma vez na semana. Ele tem diagnóstico de autismo e alguns passeios que são simples para crianças neurotipicas, para ele nem sempre.

Esperando por um dia daqueles que pessoas desconhecendo comportamentos autistas, revelam seus olhares curiosos e estranhos além de comentários indiscretos sobre ele, uma princesinha de 4 anos veio em minha direção perguntando porque ele era assim.


Imagem da internet

Expliquei em palavras simples que ele era autista e, como toda criança é diferente uma da outra, ele também era diferente, que ele fala , brinca e se comporta do jeitinho dele. No mesmo momento ela exclamou em alta voz para a irmã mais velha que parecia ter uns 10 anos de idade : "Viu fulana , ele não é louco como você disse, ele é autista!!!"

Desnecessário explicar o que senti em meu coração ao ouvir essas palavras de uma criança com 10 anos de idade. Esqueci o fato de que poucos são os pais que ensinam seus filhos sobre as crianças especiais, porque entendem que esse assunto é limitado a sala de aula.

Peço que compartilhe com seus amigos essa mensagem para que juntos possamos conscientizar as famílias sobre crianças especiais e autismo, doença que vem crescendo exponencialmente nos últimos anos no mundo todo, prejudicando a criança em algumas áreas de sua vida.

Se através dessa mensagem, famílias passarem a ter um olhar de amor para as crianças especiais orientando seus filhos sobre o tema, meu objetivo será atingido.

Obrigada! 💙


Danyelle Maria Rodrigues
Mãe de Vicenzzo, 4 anos, diagnosticado há 2 anos.


Mas, o que ensinar ao seu filho sobre crianças especiais? Confira dicas aqui no Lagartavirapurpura


Que tal ler mais textos sobre Autismo escritos exclusivamente para no nosso Blog?

sábado, 6 de agosto de 2016

Diagnóstico de Autismo

Mamães ( e papais)
Como muitos já sabem sou pedagoga e, trabalhando com crianças autistas por anos, gostaria de fazer um alerta para os pais em fase de investigação do transtorno:


Não se satisfaça no primeiro diagnóstico!


Sempre que uma mãe me procura para conversar sobre seu filho ser autista, o que mais me preocupa é ela ter recebido esse diagnóstico de um modo simplista e precipitado.

A dica preciosa aqui é não acelerar essa fase. Sei que é difícil, sei que o que mais queremos é ter respostas para tantas perguntas... Porém, acalme seu coração. 

O mais importante agora é investigar minuciosamente e saber que só quem fecha o diagnóstico de Autismo é o psiquiatra ou o neuro pediatra e - mesmo assim - não é na primeira consulta. 


Leva tempo. Leva mesmo. Isso porque o Autismo é um distúrbio crônico de comportamento que não tem "cara", nem exames exatos de diagnósticos, nem tratamento padrão.  


O diagnóstico é essencialmente clínico e são necessários no mínimo 7 sintomas para ser caracterizado. Ou seja:


Se seu filho não brinca com outras crianças pode ser timidez,
Se seu filho não te abraça pode ter uma personalidade mais instropectiva
Se seu filho está demorando a falar pode ser alguma deficiência na audição
E assim por diante!


É logico que a gente tem que acompanhar os marcos de desenvolvimento da criança e procurar um especialista assim que sentirmos que algo está errado. Temos que estar sempre alertas, sempre junto, sempre conscientes, mas sem nos desesperar.


Se quiserem conversar sobre o Autismo estou à disposição. Espero de alguma forma, poder ajudar!


Por Jan M Bormann
Jan é Pedagoga e mãe de dois filhos
Pedagoga com Habilitação em Educação Especial e pós graduação em Psicopedagogia.


Quer saber mais sobre Autismo? Consulte esse Artigo no Site do Dr. Dráuzio Varella

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segunda-feira, 2 de maio de 2016

segunda-feira, 11 de abril de 2016

Autismo e Relacionamentos - Por que é tão difícil?

“Você vive sonhando com um mundo que não existe”. 


Eu estaria mentindo se começasse dizendo que nunca ouvi essa frase – ou algo parecido - alguma vez na vida. 

A verdade é que eu nunca soube por que relacionamentos interpessoais são tão difíceis para mim e nem sei explicar o motivo pelo qual mantê-los pode se tornar um pesadelo ou, talvez, uma benção.



Blue Girl by Lora Zombie

Sempre fui uma criança tímida, extremamente reservada e tinha pouquíssimos colegas na escola. A parte mais difícil era entender o motivo pelo qual as outras crianças gostavam tanto de brincar de pique-esconde ou no parquinho e, eu, por outro lado, não tinha a menor paciência para aquilo, muito menos com as pessoas.

Contudo, aos dez anos, tive meu primeiro desafio social. Ao entrar no fundamental, mudei de escola e era tudo tão diferente, novos colegas... precisava fazer novos amigos, pelo menos tentar. Foi muito difícil. Mas, ainda assim, não tão sofrido porque eu tinha meu irmão do lado para me ajudar a socializar.

Graças a Deus que eu tinha o Rafa na escola e ainda bem que eu tinha minhas bonecas em casa . Quem leu o meu texto anterior “Carta de uma Autista para Pais de Autistas” sabe que o Rafa (irmão) e eu frequentávamos “estrategicamente” a mesma sala de aula para ele me dar suporte.

Mas, o real motivo desse texto é para contar que eu só descobri, de verdade, o que era cultivar relacionamentos fraternos por minha conta aos 14 anos. Nessa idade,  mudamos de casa e fomos transferidos novamente de escola. E, dessa vez, na nova escola, eu e meu irmão acabamos ficando em turmas separadas, ele na turma A e eu na turma C  (devido a um provável sistema de separação de alunos pelo potencial acadêmico ou por notas) .

Foi a primeira vez que tive realmente que me virar sozinha – fazer novos amigos sozinha, copiar a matérias sozinha, entender o conteúdo sozinha.

Melhor amiga


Era hora de ter os meus amigos e não ter os amigos do meu irmão. Conheci, então, a Isabela e, depois de alguns meses, eu já não a chamava mais pelo nome e sim pelo apelido que eu tinha dado a ela: Bela.


Conversávamos, fazíamos trabalhos juntas e logo a amizade foi crescendo. Tanto que ela me convidou para o seu aniversário de 15 anos. Para isso acontecer é porque fui considerada um pessoa muito importante e - nesse momento - entendi que era muito legal ter uma amiga que não fosse a minha mãe.

Uma amiga para quem eu contava tudo. Crescemos, trocamos de escola, mas a amizade nunca foi embora porque eu e a Bela somos amigas até hoje.

Melhores amigos

No ano seguinte, minha mãe deu um jeitinho de me colocar na mesma turma que o Rafa de novo. E, eu adorei! Isso porque conheci outras pessoas super legais e me achei super crescida só porque eu tinha um grupo de amigos com mais de três pessoas.


Aquele ano, dividi muitas histórias com o Josué, com a Stephanie e com o Gabriel, além do Rafa. Demos tantas risadas juntos, saímos juntos, brigamos e, pela primeira vez em anos, eu sentei no fundão da sala.

Desse grupo todo, o Gabriel foi o único que seguiu comigo e o Rafa para o Ensino Médio. O primeiro ano foi mágico, mas também infernal, passamos por tantos problemas, por tantos momentos de “Eu não quero mais estudar nessa escola”, mas superamos! Todos nós, juntos.

Melhor Professor (ou não)


Os outros anos, no entanto, foram como a Idade Média para mim. Foi o período mais obscuro pelo qual já passei. Primeiro porque me separaram do Rafa e do Gabriel novamente e, segundo, porque eu tinha um professor que não nos entendíamos em nada e nem sequer conseguíamos manter dez minutos de diálogo.


Todavia, não posso esquecer dos mestres que me deram inspiração. Rosélio, agradeço a paciência que teve comigo e com a minha mãe. Esse texto também é para você! Afinal de contas, a inspiração de fazer Pedagogia tinha que vir de algum lugar e, sim, você foi o responsável por isso também!

Melhor experiência

A faculdade de Pedagogia, claro, foi a melhor época que eu tive na vida já que, no segundo ano, mais da metade da minha turma já sabia que sou autista.


Aliás, eu devo um agradecimento especial por terem votado em mim para representante de turma. Foi um marco para o meu amadurecimento. Não, não ganhei a eleição, mas ganhei um cargo de vice-representante de turma, dividindo o reinado com a Fabiana. 

Nossa, eu não podia terminar esse texto sem citar a Bia, apelido carinhoso da Fabiana, com quem dividi, por quatro anos, o reinado da nossa turma. Pensei tantas vezes em desistir, mas ela nunca deixou e, honestamente, aprendi tanto nesses anos, especialmente a me comunicar melhor. Hoje em dia moramos em estados diferentes, ela é mãe e eu não, contudo, nos falamos pelo Facebook sempre que podemos. 

Assim como aconteceu com a Bela, a amizade com a turma da faculdade também permaneceu. Falamos pelo Facebook, WhatsApp e esses relacionamentos são a melhor parte da minha vida nos últimos tempos.

Conheci tanta gente na faculdade que não conseguiria citar todo mundo aqui, mas quero dizer que fazer parte dessa turma foi uma honra porque, por mais orgulho que eu tenha de dizer que sou autista, vocês me aceitaram como ser humano predisposto ao erro e ao acerto. E, isso, não tem preço. Obrigada gente!

Agradeço ainda aos meus pais e ao Beh por terem estourado a bolha e me mostrado o quanto o mundo pode ser belo se eu enxergar o lado bom da vida. É, relacionamentos são, na verdade, o lado bom da vida quando existe aceitação, respeito e amor envolvido.

Voltando a frase inicial do texto “Você vive sonhando com um mundo que não existe” eu agora respondo.  Sim, eu vivo sonhando mesmo! O que as pessoas não sabem é que esse mundo existe. E também é escolha delas entrar nele ou permanecer do lado de fora.



Turma da Quel

Por Raquel Torres
Filha, Autista e Pedagoga
http://quelltorres.blogspot.com.br

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sábado, 2 de abril de 2016

Anelis e seu sapato Azul

Recebo uma mensagem falando desse blog e da semana do Autismo. Pedem-me pra escrever, fico animada com a possibilidade de ajudar outras mães, mas - logo penso - escrevo sim, mas não vou me identificar porque tenho medo de represálias, do entendimento dos outros, das consequências do mundo cruel como só ele sabe ser.

Minha insônia teimosa tarda, mas não falha. São 04:36 da manhã, minha cabeça não para de pensar. Eu que tenho andado meio poeta e boêmia não posso me acovardar diante disso, e decido logo, pra dormir preciso escrever, e sendo eu, autora de minha própria vida não escreveria nunca sem a coragem de me identificar, não seria eu e sim um “fake”.



Pois então, cá estou eu Tessa (isso não é um pseudônimo por mais que pareça) mãe e companheira de vida escolhida pela Anelis, uma linda (linda mesmo, não é coisa de coruja por mais que eu não durma a noite) menininha de três anos, dona dos olhos pretinhos mais expressivos da natureza, do cabelo majestosamente cacheado pelos anjos e do sorriso mais amoroso e sincero do mundo. 

Minha pequena tem atualmente um diagnóstico de comportamentos compatíveis com o Transtorno do Espectro Autista (TEA) e/ou transtorno global do desenvolvimento sem outra especificação. 

Se você for ler o que é, provavelmente chegará a conclusões como “viver no próprio mundo”, isolar-se, profunda dificuldade de relacionamento interpessoal, manias, agressividade, dificuldade de entendimento, pouca ou nenhuma interação e relacionamento, não enquadramento às regras sociais, inteligência muito específica ou fora da faixa normal em alguns casos, retardo mental (também em alguns casos), atraso cognitivo, automutilação, agressividade, dificuldades, psicopatia.

Agora pegue tudo o que eu falei no parágrafo anterior e jogue no lixo. Guarde apenas a minha definição: Autismo é ser Autêntico. É uma outra forma de inteligência, como bem definiu minha psicóloga. É uma forma sistemática de ver o mundo com muito, mas muito mais entendimento racional e emocional do que nós, pobres humanoides perdidos no meio da sociedade que nos afoga em regras e que nos faz viver a vida de acordo com o que a “mente coletiva” dita como certo e errado. 

É ter aquele “botãozinho do F....-se” (desculpem o termo mas não cabe outro aqui) sempre ligado com muita maestria. É fazer o que se quer, na hora que quer com muita sinceridade e pureza. E isso acontece na maioria das vezes sem invadir o limite do próximo, que é o que muitos pensam. Não! É viver conforme as próprias regras construídas na base das sensações e o que é mais bonito: apenas na afetividade se dá. 

O Autêntico só se relaciona com o “próximo” que se “aproxima” por amor, e ele percebe não sei por qual canal, apenas o amor genuíno. O autêntico não fala oi, bom dia ou boa tarde, raramente um tchau. Mas às vezes fala, e aí meu amigo, quando fala é verdadeiramente um BOM DIA. 

O contato visual é raro, mas quando acontece é tipo um arco íris no céu, conecta dois rios com muita cor e deslumbramento. Incomoda-se com a quantidade excessiva de informação visual, mas enxerga o detalhe que ninguém vê – isso é sublime. 

Não senta quando todos estão sentados, quer deitar-se no chão quando todos estão de pé. Andar pra todo o lado é bem natural – isso é estar vivo assim como a onda no mar. Para mim vida é movimento: de um lado pro outro, pra cima e pra baixo - haja visto que um traço reto no ecocardiograma significa morte. 

Muito barulho incomoda, mas que barulho? O barulho chato de uma furadeira é bem perturbador, do liquidificador dilacerador, de pessoas discutindo política... Mas o frenesi da bateria de uma banda de rock não incomoda, o trovão fascina e um bebê chorando desperta interesse: isso é ouvido seletivo, eu queria muito ter um. Os autênticos também gostam muito dos animais e de instrumentos musicais, qualquer semelhança com o que acredito ser anjo e céu é mera coincidência.

Um dia me disseram que sofro de excesso de compaixão. Depois da Anelis não acho que sofro, tenho certeza que isso é um dom. Se ter compaixão é colocar-se no lugar do outro esse é meu lema de vida, quero ver o mundo pelos olhos dela. Esse mundo é mais inteligente e evoluído que o nosso, por que é único, exclusivo, diferente e especial. 

Não sou, nunca fui e me recuso a ser padrão - isso é minha essência – por isso defendo que autismo é ser autêntico, fora do padrão e fora da caixinha – que caixinha cara pálida? Queremos estar fora da caixinha assim como o brinquedo pra ser brincado, o chocolate pra ser comido, o sapato pra ser gasto e o passarinho fora da gaiola pra ser liberdade.

Quando eu morrer quero ter a certeza de que passei a vida brincando, comendo, gastando o meu sapato com liberdade. A Anelis já nasceu assim, sorte a dela.

Tessa Alves, mãe de Anelis (3 anos)
Nutricionista


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Ser Mãe de Autista é, antes de tudo, Ser Mãe

Quando me pedem para expressar meu sentimento quanto a ser mãe de uma criança especial, me vem primeiro a cabeça o sonho que eu sempre tive: Ser Mãe. Independentemente de qualquer condição, ser mãe já demanda bastante. Demanda amor, dedicação e tempo. Demanda renúncia, escolhas. Demanda mudança, amadurecimento.

Mas, ser mãe de uma criança especial não somente te faz mais forte, como te coloca numa vida que você não pediu, não previu, numa situação que você tem que abraçar e encarar, mesmo sentindo-se vulnerável.



Ser mãe de autista é viver com muita, muita emoção. Emoções diversas. A começar pela percepção de que algo está diferente com o seu bebe. A emoção neste caso é dolorida. Encarar a realidade não é fácil. Você esquece marido, amigos e a sua própria vida. Você quer entender o porquê disso tudo e tenta, em vão, "desautistar" o seu filho.

Depois, vem a facada no peito: o diagnóstico. Este papel que muda seu rumo. Que destrói muitos dos seus sonhos, mas te faz mais forte. Te faz buscar esperança de onde você pensava não existir.

Vem o luto, a revolta. O "por que comigo?". E você age, você reage, mesmo sentindo muita dor. É uma dor na alma, uma dor indescritível. Um medo do futuro. Do que será de seu filho quando ele não puder mais contar com os pais. Mas você luta, você busca as terapias, busca o melhor para o seu filho.

E, depois de um tempo, começam a aparecer as emoções que te deixam mais feliz do que quando você soube que seria mãe. Você vê que o seu filho é feliz, independente do nome do que ele tem. Você vê os progressos e valoriza cada mínimo detalhe do seu desenvolvimento.

Algumas amizades se afastam, mas o autismo te traz outras tão ou mais especiais. Você finalmente enxerga a luz no fim daquele túnel que antes parecia tão escuro. E aprende a valorizar as tuas vitorias e a quem dá valor a elas.

Não é fácil ser mãe de autista. Nunca será uma tarefa fácil. Se trata de uma criança que, com poucos anos de idade, tem mais compromissos do que muito adulto. Significa abrir mão de algumas ocasiões, antes tão importantes, e entender realmente o que significa dificuldade sensorial. Você praticamente aprende uma nova língua e se sente deslocada de outras mães, caso estas não vivam em seu mundo também.

Contudo, desenvolvi também uma força incrível, que cresce a cada sorriso, a cada palavra nova, a cada conquista. Convivo com um ser humano de alma pura, que muito mais me ensina do que aprende comigo. E, sim, aprendi a dar valor as pequenas belezas da vida. Ao que realmente importa.

Melissa Gazen de Mesquita, mãe de Pietro (5 anos)

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sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Carta de uma autista para pais de autistas

Nem sempre é fácil fazer uma família entender o autismo e nem sempre é fácil saber que aquela criança – que as mães esperaram nove meses para ter nos braços – é autista. Eu comecei esse texto trazendo essa reflexão porque embora não pareça, eu sou uma autista. 

Sou adulta, tenho vinte e seis anos muito bem vividos e posso, felizmente, relatar a minha história. Não, não foi fácil. Já era difícil ser eu, mas ser a minha mãe era pior ainda. Primeiro porque a gravidez dela não foi das melhores, depois porque eu era a miniatura do Mickey – se é que vocês me entendem – e precisava de muitos cuidados pelo meu tamanho mini.  (Não que eu ainda seja assim, pois tomei tanta vitamina que é um Deus nos acuda agora!)






A Luta é diagnosticar

Eu ia crescendo e a minha mãe, que na época trabalhava na área de saúde, foi notando alguns problemas no meu desenvolvimento. É claro que ela ficou preocupada comigo mas, no meio do caminho, teve que se preocupar também com a gravidez do meu irmão.
 
Enfim, ao completar um ano de idade, eu era um desastre de exemplo para o meu irmão, uma vez que eu nem sabia andar. Falava, porém era difícil me entender já que o meu vocabulário era, no mínimo, limitado. Eu sabia falar coisas como “mã” para me referir a minha mãe mas, até então, era bom não esperar muito de alguém com um ano de idade. 

De qualquer forma, era visível que o meu desenvolvimento – em comparação ao do meu irmão – era muito mais lento. Eu demorava mais para fazer tudo, embora aprendesse muito rápido o realmente me interessava!

Com dois anos de idade eu era uma criança celebridade já que ainda tão pequena tinha a atenção de muitos adultos – é o que eu gosto de pensar -, porém, a verdade é que com essa idade eu já tinha uma equipe médica me avaliando. Ia em muitos consultórios, muitas pessoas de branco me observavam e por aí vai. 

Não muito mais tarde a minha mãe recebeu o laudo multidisciplinar constatando que eu tenho autismo. Contudo, de acordo com os médicos, ela poderia se sentir sortuda por eu ter um grau leve de autismo. Eu que já ia muitas vezes em consultórios, passei a ir muito mais. Lembro uma vez que eu tive que deitar em uma cama fofinha, de um médico ser legal comigo e de colocarem uns negócios na minha cabeça que media algo, lembro do monitor e de ver muitas linhas verdes – estilo gráfico – subindo e descendo na tela.

Eu lembro também que não era fácil me ter como paciente porque eu não confiava em ninguém, eu odiava ir ao dentista, mas amava a minha pediatra. Acredite, ela era a médica mais legal de todas. (Eu só descobri – muitos anos depois – que era a Doutora Ana quem estava por trás de todas as furadas que eu levei até os meus doze anos. Não doutora, não te acho mais legal, se quer saber!)


A Luta é estudar

Quando eu completei quatro anos, minha mãe tinha um emprego e eu precisava estudar. Então, minha mãe foi em busca de uma escola para me matricular. Foi nesse ponto da minha vida que a luta começou porque a minha mãe ouviu muito não quando ela mencionava o fato de eu ser autista, chegou a ouvir de coordenadores que o melhor para mim era a escola especial.

Para muitos, a escola especial poderia ser boa, mas os meus médicos não recomendaram e nem apoiaram essa decisão pelo fato de eu conviver com pessoas iguais – ou em situações piores – não fosse uma boa ideia já que eu corria o risco de regredir. 

Minha mãe, então, começou uma busca desenfreada, pesquisou bastante até garantir o meu direito (agora é Lei 12.764) de frequentar a escola regular com cinco anos de idade. Ela foi até a Secretaria de Educação e, por um acaso do destino – eu prefiro chamar de desespero -, ela conseguiu falar com o Secretário de Educação, contou a ele o meu caso e, naquele mesmo dia, ela saiu de lá com um documento assinado por ele que obrigava a escola mais próxima da minha casa a me matricular.

Lá foi a minha mãe até lá me matricular com um sorriso satisfeito no rosto. A diretora não teve nem como dizer não já que a lei estava ao nosso lado. Eu lembro que comecei a estudar a tarde, mas por questões de horário, passei para de manhã. 

Lembra também do irmão que eu mencionei nesse texto? Então, a essa altura ele já tinha nascido e, de alguma forma, a minha mãe conseguiu matricular nós dois na mesma escola e ficamos na mesma sala. Eu me sentia mais segura com o meu irmão lá até porque eu não era a criança mais sociável, não gostava e nem confiava em ninguém, então a professora e o meu irmão eram os únicos com quem eu falava.Ah, e com a Edisa, a minha única amiguinha! 


A luta é entender

O que eu sei é que eu demorei muito tempo para aprender a ler, que eu demorava muito tempo para copiar qualquer coisa do quadro e por fazer algumas avaliações na diretoria. Eu não entendia porque eu não conseguia brincar com as outras crianças e nem por qual motivo eu era tão lenta, inclusive, isso pairava bastante na minha cabeça. Aliás, se eu não me entendia, imagina os outros.

Eu lembro de uma professora minha brigar comigo quando eu estava na 1° série, ela disse que eu era preguiçosa, que não copiava as coisas do quadro porque eu vivia no mundo da lua. E que a minha atividade preferida era ouvir a conversa dos outros. 
Isso me marcou bastante porque eu não era mal-educada ao ponto de parar o que eu estava fazendo para “ouvir a conversa alheia”, o que acontecia é que eu vivia no meu próprio mundo, um que só existia para mim.

O trauma só não foi maior porque durante os quatro anos do Ensino Fundamental, a minha mãe me acompanhou na escola, era raras as vezes que eu estava sozinha, que eu não tinha alguém me observando. E, naquele ano, eu realmente fiquei feliz por ter sido aprovada.


A Luta é superar

No ano seguinte, eu comecei uma série nova, uma bem legal, aliviada porque eu tinha outra professora. O problema mesmo é que eu tinha medo dela pelo fato de ela ter cara de brava e parecer má! 

Eu que já não confiava muito nas pessoas, continuei insociável, continuei com a minha lentidão e tinha um sério problema com matemática. A professora, por sua vez, me pressionava bastante no começo e eu tinha vontade de chorar quase todos os dias.
No entanto, a Tia Hilda, aos poucos foi me mostrando que o coração dela era tão grande quanto o da minha mãe e eu entendi o que ela estava fazendo com o auxílio da minha mãe, eu entendi que elas estavam me motivando a crescer, a agir como uma criança normal, apesar das limitações.

É, obrigada meninas! Isso foi muito importante para mim e eu carrego para sempre no coração o que vocês duram fizeram por mim. Porque não é qualquer professora que briga com a direção da escola como você brigou e tudo isso com um só objetivo.

Eu me despedi da Tia Hilda no meio da 4° série, quando ela precisou se afastar da escola por motivos de saúde e, honestamente, foi o período mais complicado da minha vida pelo fato de eu não ter mais rotina. Odiava quando precisava mudar.


A luta é não desistir

Eu tive algumas crises e sei que fiz a minha mãe passar muita vergonha na vida por minha causa e é por isso que eu a admiro tanto porque, mesmo em meio ao caos, ela não desistiu de mim. Eu sei que ela abriu mão de muitas coisas para me acompanhar na escola, que ela deve ter brigado com a direção da escola algumas vezes, que ela não viajou o que tinha que viajar porque não queria me deixar.

Mãe, obrigada por não desistir. Foi muito importante. Mães, não desistam de seus filhos mesmo que a luta seja grande, eles são os seus maiores bens e, mesmo que não pareça, eles vão te encher de orgulho. 
Lembro de uma crise muito forte que eu tive, eu tinha uns doze anos. Eu tinha uma agenda rosa da Barbie que tinha um fio de nylon rosa e que fechava a agenda – daquele tipo de caderno que fecha com elástico – e eu tinha muito ciúme daquele objeto. Um dia, o meu irmão caçula brincando, cortou o fio e eu entrei em crise pelo fato de saber que mesmo que consertassem, ele nunca mais ia ser o mesmo.

Foi marcante, foi assustador porque quanto mais eu tentava me controlar, pior ficava, porém, de alguma forma, a minha mãe conseguiu me acalmar. Até hoje só nós duas entendemos o que existia por trás daquele escândalo e só nós duas entendemos o real significado dela. Como eu disse antes, era difícil ser eu e bem mais difícil ser a minha mãe.


A luta é viver

O Ensino Fundamental II foi a época mais tranquila da minha vida porque foi quando conseguimos estabilizar as crises e quando eu comecei a ter contato com o que realmente me interessava.

Eu me tornei um pouco mais sociável e até tinha um grupo de amigos – e, sim, meu irmão ainda estava na mesma sala que eu, na mesma escola e ele me incluía em tudo.Valeu, Rafa! Gratidão eterna!


Nessa mesma época eu fui liberada e já não tinha mais que ir no psicólogo umas duas vezes por semana, eu já não tinha mais que tomar medicação, eu era uma garota quase livre. Porque era muito comum ver a minha mãe nos corredores da escola.

 
Quando eu fui para o Ensino Médio, eu já tinha mais consciência e já entendia bem o que era autismo e como era difícil lidar com ele, como era difícil ser a estranha, de ser a tímida em um território de populares. E, por esse mesmo motivo, eu considero o Ensino Médio a época mais difícil e cruel que eu tive que passar porque a minha mãe me deu um pouco mais de liberdade e já não passava tanto tempo na escola, embora nunca tenha abandonado a ideia de me acompanhar. Ela fazia isso do jeito dela.


Eu sempre ouvi, muitas vezes, que autistas não chegam ao Ensino Médio porque as condições de aprendizagem deles são limitadas. No entanto, comigo foi diferente pelo fato de eu não ter perda cognitiva.



A luta é minha

Em 2008, eu, a autista, entrei na faculdade de Pedagogia. Escolhi esse curso porque queria ajudar crianças como eu, queria contar para elas que ser diferente não é vergonhoso, que ser diferente é ser especial, é ser único.

E foi uma das melhores escolhas que eu fiz na vida já que eu fui parar em uma das melhores faculdades da cidade, fui tratada com o respeito que eu merecia, fui estimulada, participei de projetos inovadores e, em meio a isso, encontrei outro anjo que me ajudou muito mais do que eu poderia imaginar. Ela me levou para estagiar na clínica que ela trabalhava, me mostrou um mundo que eu não conhecia e que eu poderia estar nele, que eu poderia fazer o que eu quisesse.


Naquele dia eu entendi que eu jamais deveria me sentir inferior, por maior que seja o preconceito, eu jamais deveria me sentir assim e que as pessoas só fariam comigo aquilo que eu permitisse.


Terminei a faculdade e escolhi o Autismo como tema da minha monografia e pesquisei muito sobre o assunto e me formei em 2011. Eu, a autista, pedagoga!



A luta é nossa!

Atualmente, sou formada em Pedagogia e Letras e estou terminando duas pós, sendo uma delas uma especialização em Psicopedagogia Institucional e Clínica. Também fui aprovada – de novo – no vestibular e daqui a alguns meses começo a faculdade de Jornalismo.


Autismo é uma causa que eu nunca vou abandonar. Eu quero tranquilizar mães e pais, eu quero ajudar essas crianças e eu também quero ser a porta-voz do Autismo. Eu quero um mundo com mais respeito e com menos preconceito, eu quero que as pessoas enxerguem os autistas como verdadeiramente são, eu quero conscientizar e tirar esses estereótipos que as pessoas costumar dar aos autistas.


Eu quero um mundo melhor para eles que, assim como eu, também são autistas e eu quero dizer para as mães que seus filhos são especiais sim, mas são únicos.


Mães, essa luta é nossa!

Raquel Torres
Autista, Pedagoga, filha de Selma e irmã de Rafael


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terça-feira, 7 de julho de 2015

Carta para uma amiga


"Amiga querida, não nos conhecemos pessoalmente, nunca nem sequer te dei um abraço, pois milhares de quilômetros nos separam, mas agora mais do que nunca queria te abraçar e dizer que vai ser fácil mas não posso...

Sei que desde que seu anjo era pititico conversávamos sobre algumas dificuldades motoras e de comportamento dele, afinal somos amigas de barriga e compartilhamos nossas aflições em relação a nossos príncipes...

Sempre te disse que queria estar por perto para ajudar a avaliar seu ‘gatinho’, pois com tantos anos trabalhando com crianças especiais eu poderia fazer alguma coisa. Lembro das primeiras vezes que levantamos a possibilidade de autismo. Quantas vezes choramos juntas eu aqui no interior de São Paulo e você na Suíça, tão longe mas parecendo tão pertinho.

Sim amiga você negou, assumiu, negou de novo, até que estufou o peito e disse “sou mãe de criança especial, agora vou em busca do diagnóstico”. Depois de terapias, terapeutas, escolas que aceitavam, outras não, enfim veio o diagnóstico: "Você é mãe de um lindo (lindo mesmo) Anjo Azul". Sim, seu menino é autista, agora você tem certeza..Não que vá ficar mais fácil, no começo talvez fique até mais difícil...mas agora você sabe...Agora sabe quais terapias serão necessárias e você pode estufar ainda mais o peito e dizer "Sim meu filho é autista".

Talvez você ainda enfrente preconceitos, como toda mãe de crianças especiais, mas você é forte e vai conseguir. Você renasceu como mãe."


*Por Jan M
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sábado, 2 de maio de 2015

A importância da parceria dos pais e professores na educação


 Por alguns anos, trabalhei em escolas especiais e sempre encontrei pais que facilitavam a vida dos educadores, no caso eu. Ou dificultavam todo o trabalho a ponto de não haver progresso na educação dos filhos.

Na primeira escola em que trabalhei, a maioria dos alunos eram autistas. E alguns muito agressivos que precisavam de contenção medicamentosa, inclusive. No entanto, algumas mães insistiam em não medicar por simples dó ou até mesmo por medo, entretanto, uma das características do autismo é a autoagressão (quando machuca a si mesmo) e heteroagressão (quando machuca o outro), e é lógico que quando o aluno entrava numa crise agressiva, acabava atrapalhando o andamento da aula, prejudicando, portanto ele mesmo e os demais alunos.

Tive uma aluna com hipotonia facial (flacidez na face), cujo sintoma a atrapalhava na fala. Para isso, a fonoaudióloga orientou que déssemos alimentos em pedaços pequenos a fim de treiná-la, mas sua mãe nunca nos permitiu fazer este tratamento, dificultando assim todo o nosso trabalho e a evolução de sua filha.

Quando os pais são parceiros, tudo fica mais fácil. Por outro lado, entendemos que não é fácil para os pais aceitar e impor limites, ainda mais em se tratando de crianças especiais.

Trabalhei também no caso de uma outra menina com um sério comprometimento físico e mental. Lembro-me que no intuito de socializa-la (porque era muito comprometida), a diretora da escola a colocou nas aulas de canto. E mesmo com o tempo, a menina não interagia com as aulas, mas com a ajuda da família, ela começou a sorrir quando falávamos com ela. Pode não parecer muita coisa, mas quando uma criança dessas sorri, para nós da educação especial, é muito! Afinal, aquela garota cuja mãe ainda chamava de “meu bebê” com 13 anos, parou de colocar a mão inteira na boca (que chegava a ferir) só porque começamos a chama-la de “mocinha”. Para isso, a ajuda da mãe foi importantíssima. Pedi que não chamasse mais a filha de bebê e atendeu prontamente. Mandava até lanchinhos que a filha com o tempo acabou aprendendo a comer sozinha, ou seja, contribuiu com o nosso trabalho e o resultado pode ver com o progresso da filha dela!

Esta sincronia entre pais e escola é o que existe de mais positivo para um aluno, seja ele especial ou “normal”. Por isso, incentivo as mães a ajudarem em tudo e colaborarem com o trabalho que fazemos em prol de seus filhos. A melhora é progressiva, depende de tempo. Mas com ajuda e colaboração, todo esforço vale à pena!

*Por Jan. M.


quarta-feira, 15 de abril de 2015

E quando o diagnóstico não vem...?


Minha ideia era escrever novamente sobre inclusão (de crianças especiais às escolas comuns que não estão preparadas para recebê-las), porém conversando com uma amiga que mora na Suíça, cujo filho de 5 anos de idade já faz terapia a dois anos e vem buscando incansavelmente um diagnóstico, lembrei de inúmeras mães que encontrei durante os anos de trabalho como educadora especial.

Essa mãe, (assim como muitas) luta para saber de fato o que o filho tem, pois como ela mesma afirma: “isso é um direito de cada um”. Mas, mesmo na Suíça, os diagnósticos demoram demais.

E vocês devem estar se perguntando: Por que é tão importante um diagnóstico?

Eu explico: o primeiro e principal ponto, é que o tratamento e terapias são específicos para cada indivíduo. No caso do autismo, por exemplo, existem métodos mais eficientes do que outros, e encontrar um médico que efetivamente entenda o autismo pode ser um obstáculo a ser vencido, pois a menos que este médico tenha tido experiência com a síndrome, é provável que sozinho seja incapaz de ajudar a tratar esta condição. Afinal, não é um simples transtorno invasivo do comportamento que pode ser melhorado ou curado com alguma medicação e poucas visitas ao psiquiatra. É algo que vai além, é uma desordem severa que afeta cada indivíduo de forma diferente e torna cada caso específico e único.

Por isso, se há suspeita de autismo por você, algum familiar próximo ou mesmo o pediatra, é decisivo que a criança seja encaminhada a um especialista para diagnosticar e tratar essas desordens do espectro autista, o que significa que seu filho pode necessitar de mais médicos e profissionais especializados nesta área. Mesmo porque, o tratamento visa trabalhar o todo, e por isso os profissionais devem trabalhar em conjunto, com avaliações periódicas para um desenvolvimento pleno do indivíduo com a síndrome, ou seja, é algo muito mais complexo do que fazer alguns exames e chegar num único diagnóstico padrão.

Em outras síndromes, transtornos ou deficiências, o diagnóstico também pode ser extremamente complexo e demorar anos, às vezes até décadas para ser descoberto. Vale citar que para muitos deles, a medicina já se especializou com o passar dos anos, e já é possível diagnosticar uma “síndrome de Down” (trissomia do cromossomo 21, é uma alteração genética causada por um erro na divisão celular durante a divisão embrionária. Os portadores da síndrome, em vez de dois cromossomos no par 21, possuem três), por exemplo, através de exames durante a gravidez.

As ultrassonografias realizadas no pré-natal podem apontar para a possibilidade de o bebê nascer com síndrome de Down ou outras ocorrências genéticas. Neste caso, a gestante deve avaliar junto com seu médico a necessidade da realização de outros exames para a confirmação do diagnóstico.

Atualmente, os exames mais comuns para diagnosticar a síndrome antes do nascimento, são: a “aminiocentese” e a “biópsia do vilo corial”, que analisam o líquido amniótico e uma amostra da placenta, respectivamente. No entanto, ambos são invasivos e apresentam um risco, ainda que pequeno, de interrupção da gravidez.

Por outro lado, existem também outras síndromes, transtornos e deficiências que a medicina ainda desconhece e pelo fato de acometerem pouquíssimos indivíduos ao redor do mundo, é muito difícil precisar qual o seu diagnóstico ou mesmo quais os sintomas predominantes e característicos de cada uma delas. Um exemplo é a “síndrome de Pitt-Hopkins”, que foi descrita pela primeira vez em 1978 por D. Pitt e I.Hopkins no jornal de Pediatria da Austrália, e o gene que a provoca só foi descoberto em 2007, ou seja, 20 anos depois. Chamado de TCF4, este gene situa-se no cromossomo 18 e desempenha um papel essencial no desenvolvimento do sistema nervoso. Ele ocorre por deleção ou mesmo por uma mutação.

É caracterizada pela deficiência intelectual e atraso no desenvolvimento (moderado a grave), problemas respiratórios e oculares, convulsões ou epilepsia (40%-50%), constipação intestinal, características faciais distintas e comportamento alegre. E apesar de a prevalência geral ainda ser desconhecida, um laboratório americano estimou que a frequência de deleções associadas ao cromossomo 18q21 é de 1 em 34.000 / 41.000. Outro pesquisador considerou a probabilidade de 1 em 200.000-300.000.

Desta forma, a incidência desta síndrome não está limitada a um determinado grupo, e pode atingir tanto homens quanto mulheres. Atualmente foram diagnosticados cerca de 350 casos no mundo e no Brasil, temos apenas seis já confirmados.

Assim como esta síndrome, existem inúmeras outras desconhecidas totalmente pela medicina e acometem crianças, jovens e adultos, por isso, o quanto antes é iniciado o acompanhamento médico, com especialistas unidos para investigar todos os sintomas, mais rápido pode vir o diagnóstico ou mesmo um tratamento que venha aliviar os sintomas.

A medicina depende de casos complexos para se especializar e desvendar certas “doenças” no intuito de chegar a uma possível cura ou melhora significativa no estilo de vida de cada paciente, mas para que isso aconteça, é preciso ter muita perseverança e paciência.

Para o diagnóstico de crianças com suspeita de necessidades especiais, algumas especialidades médicas podem ajudar e serem uma porta de entrada de um possível tratamento. Nesta lista estão: o neuropediatra, o psiquiatra infantil e em casos mais específicos médicos geneticistas que provavelmente irão investigar cada parte do corpo (físico, mental e emocional) da criança e solicitar exames que vão desde os mais simples como de sangue, eletroencefalograma, tomografias e ressonâncias magnéticas, até um mapeamento genético que pode demorar a ter um resultado. Vale lembrar que para cada suspeita diagnóstica, é solicitado um exame diferente.

Senti um pouco disso na pele, quando meu filho com apenas 6 meses de idade foi diagnosticado erroneamente com “APVL” (Alergia a proteína do leite de vaca e seus derivados), e foi tratado assim até 1 ano de idade. Após muitas idas e vindas do hospital, descobrirmos o verdadeiro diagnóstico cerca de um ano depois, que era na verdade imunodeficiência (problema de imunidade), e depois do início do tratamento correto, ele já não adoecia com tanta frequência, chegando aos 3 anos super bem.

De certo que no caso das síndromes ou deficiências intelectuais como disse acima, não são tão simples de serem diagnosticadas e as terapias corretas trazem melhoras substâncias na vida da criança e da família. Por isso, converse com o pediatra e nunca aceite o primeiro diagnóstico. Investigue e procure outras opiniões, isto é fundamental.

Para devido fim do conhecimento de todas as mães, e responsáveis por crianças especiais ressaltamos que existe no Brasil um benefício previdenciário chamado: “BPC/LOAS” (O Benefício Assistencial à Pessoa com Deficiência - BPC/LOAS corresponde à garantia de um salário mínimo, mensal, à pessoa com deficiência, que comprove não possuir meios de prover a própria manutenção e também não possa ser provida por sua família), que visa auxiliar nos gastos com as despesas médicas, medicamentosas e terapêuticas deles. Afinal, poucos terapeutas e centros especializados têm a agenda disponível, os que têm são caríssimos, e os seguros de saúde não são obrigados por lei a cobrir tratamentos psicoterapêuticos, que é como se trata boa parte das síndromes e deficiências intelectuais. Até por isso um diagnóstico consistente pode ajudar, pois é necessário comprovar a real necessidade do benefício e para isso muitas vezes são agendadas perícias médicas junto ao INSS. Inclusive, é importante se informar sobre todos os direitos e benefícios oferecidos a quem sofre com tais necessidades.

No link abaixo, é possível tirarem dúvidas de como procederem para usufruírem do benefício “BPC/LOAS” citado acima e darem entrada junto à previdência social.


Para mais informações sobre os direitos sociais para os autistas, o link abaixo pode ser esclarecedor!


Por último, afirmo que as mães precisam de um diagnóstico para o problema do filho não somente para terem um nome a dar ao problema que sofrem, para poderem explicar (mesmo que pra si mesmas) o motivo de tais reações, mas principalmente para acalmarem seus corações! Afinal, o diagnóstico nem sempre é fácil e algumas síndromes ou deficiências são raras, para essas inclusive, o fato de não haver respostas concretas é demasiadamente angustiante. Contudo, essas mães e familiares, precisam que o diagnóstico venha.

Obs.: seguem abaixo outros links que podem servir para esclarecer dúvidas acerca das síndromes citadas no artigo.

è Saiba as diferenças entre síndrome, transtorno, doença, sintoma e sinal: http://www2.uol.com.br/vyaestelar/doenca_transtorno_sindrome.htm

è Síndrome de Pitt-Hopkins, o que é, características e diagnóstico: http://www.pitthopkins.com.br/

è Síndrome de Down, o que é, características, diagnóstico e tratamentos: http://drauziovarella.com.br/crianca-2/sindrome-de-down/

è Artigo sobre sequenciar 1% do DNA para diagnosticar doenças raras: http://www.apmps.org.br/site/index.php/noticias/320-sequenciar-1-do-dna-para-diagnosticar-doencas-raras

è Centros de referência no atendimento e tratamento de crianças especiais em São Paulo, temos: o Instituto da Criança do Hospital das Clínicas-USP: http://icr.usp.br/default1.aspx e AACD: http://aacd.org.br/ . Também as AMAS (em caso de autismo): http://www.ama.org.br/site/web-link-da-ama/138-instituicoes.html e APAES (especializadas predominantemente em síndrome de Down): http://www.apaesp.org.br/Paginas/default.aspx

*Por Jan.M e Bruna C.M.


quarta-feira, 1 de abril de 2015

Dia Azul para o Autismo: informação contra o preconceito!!


A Isabella Pimentel é uma amiga virtual querida. Nos conhecemos no ano passado, quando eu estava grávida e através de uma amiga em comum pra lá de especial.

Foi a Isa quem me apresentou oficialmente ao “dia azul”. Fiquei super animada com a causa e pude vestir meu barrigão de azul para poder chamar atenção virtualmente à causa e falarmos sobre o Autismo. Mas, esse ano, decidi fazer um pouco mais.

O Muito Além das Fraldas traz para vocês, uma entrevista com a Isa.
Quem melhor do que a mãe de um autista (o liiiindo do Arthur) para nos falar sobre esse dia e dividir um pouco sobre como é conviver com essa deficiência? Você vai aprender muito com o que vem a seguir e vai se emocionar com o que vem no final, por isso, vem com a gente!

Blog MADF: O que é exatamente o “Autism Awareness Day”?
Isa: O dia 2 de abril foi adotado pela ONU em 2007 como dia internacional da conscientização sobre o autismo. Nesta data, associações de apoio ao autismo no mundo todo organizam eventos e manifestações para chamar atenção sobre a causa.

Blog MADF: Por que ele é tão importante?
Isa: O dia 2 de abril é um dia em que todos os países se dedicam a discutir a melhoria na qualidade de vida de pessoas no transtorno do espectro do autismo. Apesar do número crescente de diagnósticos positivos, ainda há uma carência generalizada de profissionais e políticas de integração de autistas em escolas e no mercado de trabalho.
Existe também muita informação equivocada sobre os sintomas e a autonomia dos autistas. O autismo ainda é visto como uma doença a ser tratada, e não como uma deficiência em alguns aspectos do desenvolvimento, que fazem com que autistas sejam apenas diferentes, e não doentes ou deficientes.

Blog MADF: Por que a cor azul nos desafios?
Isa: Isso começou com uma campanha da “Autism Speaks”, uma associação americana muito ativa em defesa dos direitos dos autistas. A associação adotou a cor azul como símbolo do autismo, porque é mais comum em meninos do que em meninas.
No dia 2 de abril, vários monumentos nacionais são iluminados de azul e pessoas que apoiam a causa se vestem de azul. Mas, também há caminhadas, debates, congressos e outros movimentos que visam conscientizar as pessoas que não estão envolvidas diretamente com o tema sobre as dificuldades que “famílias azuis” enfrentam.



Blog MADF: Quais foram as maiores dificuldades que você sentiu vivendo com o autismo tão de perto?
Isa: Meu filho irá completar seis anos de idade em agosto, mas convivo com as delícias e dificuldades de ter um filho autista há dois anos e meio, quando recebi o primeiro diagnóstico de "sintomas de autismo" (que foram confirmados só agora). As dificuldades variam de acordo com a idade e o nível de desenvolvimento do autista, mas com certeza os primeiros meses do primeiro diagnóstico são o período mais difícil.

Não existe informação suficiente sobre o transtorno e como tratá-lo. As filas de espera em centros de diagnóstico são de dois anos e tudo que nós sabemos é que quanto mais cedo começarmos o tratamento, melhores serão os resultados. Os poucos terapeutas e centros especializados têm a agenda completa, são caríssimos, e os seguros de saúde não são obrigados por lei a cobrir tratamentos psicoterapêuticos, que é como se trata o autismo.

Perdi a vergonha de implorar, conheci algumas portas onde bater, e hoje, meu Arthur está bem assessorado em um centro especializado e tem um exército de anjos em forma de terapeutas, educadores e babás que estão sempre com ele. Minha batalha agora é para que ele seja integrado na escola regular e principalmente à sociedade. Daqui alguns anos, provavelmente esta batalha será com a sua inclusão no mercado de trabalho.

O curioso é que meu Arthur responde muito bem aos tratamentos e está se desenvolvendo muito bem. Ele já fala, lê e escreve, come sozinho e não usa mais fraldas. Minha luta nunca foi sobre o desenvolvimento dele, mas em conseguir que ele tivesse acesso à educação especializada, que é um direito fundamental da criança.

BLOG MADF: O que você apontaria como os maiores avanços nessa questão nos últimos anos?
Isa: Quando comecei minha caminhada, havia um debate sobre o tratamento mais adequado e os serviços públicos disponíveis na Suíça, pendiam mais para o tratamento psicanalítico que para o psicoterapêutico.

Cada autista precisa de um tipo de tratamento diferente e eu não posso afirmar que essa linha é melhor do que aquela, mas como mãe, me alivia muito saber que a ideia de internação de jovens autistas em clínicas especializadas tem se tornado cada vez mais obsoleta.

Ainda há muita desinformação e charlatanismo, crianças sendo medicadas ou sujeitas a dietas restritivas e, o que é pior, sem uma terapia adequada, por falta de acesso ou por opção dos pais. Eu não conheço dados específicos, mas tenho a impressão que essa noção tem sido deixada de lado. Pelo menos para mim, faz tempo que não me propõem colocar o Arthur numa dieta restritiva de glúten ou lactose como cura milagrosa para o autismo.

Blog MADF: Quais seriam as 3 questões principais que precisam de mais atenção da sociedade (médica, civil, educacional...) com relação ao autismo?
Isa: Acesso à educação especializada, políticas reforçadas e possíveis de inclusão escolar e acesso ao mercado de trabalho!

Blog MADF: Qual a mensagem que você gostaria de deixar para nossos leitores nesse tão azul 2 de Abril?
Isa: Um filho autista ou com qualquer outra necessidade especial é um presente! O maior fardo que nós carregamos é a falta de oportunidades para eles, nunca o transtorno deles!

Por isso, um convite pra festinha de aniversário ou pra brincar com o seu filho, um olhar de simpatia em meio a uma crise, um carinho nos nossos filhos, vestir-se de azul no dia 2 de abril, são pequenas coisas que fazem TODA a diferença pra quem está matando um leão por dia.
(Arthur arrasando no Awareness Day ano passado)

Blog MADF: Para finalizarmos, o que você gostaria de ressaltar para nossos leitores?

Isa: Uma vez eu contei pra uma colega de trabalho que meu filho tinha autismo e, em vez da habitual cara de piedade ou "que pena!", que eu costumo ouvir quando conto isso, ela respondeu "cool (legal)!" Ela não podia imaginar o bem que ela me fez com essa palavrinha de quatro letras!

Autistas são incríveis! Eles têm um universo riquíssimo e capacidades infinitas! Meu filho, aos três anos de idade, tinha aprendido a ler sozinho com o “Ipad”, sabe contar até mais de cem e consegue se comunicar em três idiomas. Claro que é “cool” (legal) conviver com o autismo!

O dia que os pais receberem a notícia que têm um filho autista com um sorriso no rosto, vai ser o dia que eu não vou mais precisar me preocupar com o futuro do meu filho autista mais do que me preocupo com o futuro do meu filho “neurotípico” (dito popularmente como “normal”).

Autistas são essenciais à sociedade! Eles são críticos, inventivos e inovadores. Eles só precisam de oportunidades. Incluam-nos que vocês só têm a ganhar!

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E agora, depois de lerem tudo isso, bora pintar o mundo de azul amanhã?

As campanhas, sejam elas físicas ou virtuais, são importantíssimas porque fazem com que as pessoas se lembrem do assunto. Elas trazem à tona, tópicos de discussão que acabamos deixando de lado no dia-a-dia ou nem mesmo sabemos que existem porque não fazem parte da nossa realidade. E quando estamos na internet, temos uma oportunidade única de alcançar muito mais pessoas do que pessoalmente.

Por isso, amanhã, se vista de azul! Poste sua foto nas redes sociais usando a “hashtag” oficial da Campanha: #autismawareness e a nossa #MADFdiaAZUL. Faça com que todos os seus amigos pensem, nem que por um segundo, sobre o autismo. Ajude-nos a fazer deste dia, um dia diferente. 

Aproveitem e também participem da nossa promoção valendo um livro!!
Saiba mais em "promoções" dentro da nossa fanpage do facebook!
https://www.facebook.com/muitoalemdasfraldas

Divulguem essa entrevista feita de coração aberto...
O olhar honesto de uma mãe sobre seu filho é o tipo de coisa que tem poder infinito na luta contra o preconceito e totalmente a favor da informação, pense nisso!

Amanhã, seremos todos azuis.

Por Tatinha N.